quarta-feira, 14 de março de 2018

Chorei


Chorei, meu. Chorei. Aquele dia.
Não à noite. À noite, eu fiquei olhando as estrelas. Elas não estão no lugar certo, já percebeu? Os desenhos delas... Os triângulos são muito tortos! Os quadrados não são nem um pouco quadrados. Dá vontade de dar uma mexida aí, bem de leve, na ponta dos dedos...
Fiquei horas assim esperando para ver se elas iam não se mover sozinhas. Mas só piorou. E acabei dormindo. Lá pelas três ou quatro horas. No chão do terraço.

Não foi nem o sol que me acordou. Quem me acordou foram os aviões, passando logo ali, em cima da minha cabeça. Costumo escutá-los quando estou no quarto. Mas eu não sabia que eles passavam tão perto. Muito perto, mesmo. Muito perto.
Levantei. Fiz um café. Normal. Tomei um banho gelado, que era para despertar de vez. Não deu certo. Demorei para sair. Quando desci, o pessoal da casa já tinha acordado. O Oscar sentado no sofá, com café e cigarro na mão. Oscar sempre tem uma palavra gentil quando me vê passando com violão nas costas. Até confesso que, às vezes, eu faço questão de esperar ele levantar para sair, só para pegar esse pouquinho de ânimo a mais.
- Bom dia!
- Bdia...
- Vai tocar?
- Vou.
- Ai! Minha heroína!
- Obrigada, Oscar.
Fui.

Calor infernal na rua. E aquele pressentimento no caminho, de que hoje não seria o dia... Mas também, não tinha como saber. Achei um cantinho de sombra numa calçada e montei o equipamento.
Já suando.
E comecei a tocar.
...
Meio vazia. Invisível.
E as pessoas passando.
Negando até um olhar, um sorriso.
Não era o dia, mesmo. 35 graus não é mole. Só sai pra rua quem tem algo muito importante para fazer. E não tem ouvido nem para samba.
E eu cantando.
Fingindo.
Pingando.
...
Volte e meia, alguém afrouxava o passo e botava a mão no bolso. E depois olhava para mim com cara de: “Poxa, se eu tivesse aquele realzinho, eu até te dava...” E seguia seu caminho.
...
Depois de uns 40 minutos, um rapaz finalmente achou aquela moedinha no fundo do bolso e me deu. 50 centavos. Agradeci do coração.
...
Depois de quase duas horas cantando, eu tinha ganhado mais três notas de dois e alguns trocados.
Dava vontade de chorar, mesmo...
Mas não chorei. Segui tocando.
Claro que o certo era voltar para casa. Mas também... voltar para quê? Não tinha nada para fazer em casa...
...
Melhor estar aqui tocando... mais uma música...
...
Mais uma.
...
Mais umazinha...
...
E nada. Ninguém. Nada.
...
Tá, mais uma... e depois dessa...

Aí, já não lembro qual é a música que eu estava tocando. Só sei que eu estava chegando no final dela. Tipo, última estrofe. Quando uma senhora apareceu de repente na minha frente e agarrou a minha mão. A mão direita, a que toca as cordas. Tive que parar.
“Segura aí!” Ela falou.
Segurei. Ela tinha colocado algo na minha palma.
E ficou me olhando bem nos olhos, com aquela firmeza no olhar.
“Você tem uma voz maravilhosa. Você tem que continuar.”
Falou.
E foi embora.
...
Abri a mão. Tinha uma nota de vinte reais. Bem dobradinha, num quadradinho.
Botei no bolso e retomei a música de onde eu estava.
Mas aí, começou a apertar o peito... 
Só que já não dava mais para parar. Tomei uma água e tentei pensar em alguma música mais leve, que os meus nervos pudessem aguentar. Missão impossível! Pois todas as músicas que eu toco têm a sua carga emocional... alguma lembrança, alguma história, algum amigo...
“Se a gente lembra só para lembrar... O amor que a gente um dia...”

Chegou então uma outra senhora. 
Argentina, ela. 
Parou na minha frente, abriu a carteira, puxou uma nota de vinte reais e a colocou no chapéu. 
E foi embora - ainda agradecendo com sorriso educado.
...
..
.
Aí foi demais.
Travei. Fiquei pensando... Me perguntando... por que é que às vezes as coisas dão certo... E às vezes não... E qual é a nossa responsabilidade sobre isso. O nosso poder. E quantos fatores interferem. E que não têm nada a ver com a gente. Ou talvez tenham... E quantas pessoas. E quantas coisas que a gente não entende. Sequer percebe. Quantas coisas... A gente...
E desmontei. Não chorei, não! Só fiquei sem fôlego. Fui guardando as coisas, devagarinho. Com calma.
E voltei pedalando no sol.
Só parei para comprar algo de comida pra casa, com aquela segunda nota de vinte.
Mas a primeira nota, eu guardei. E tá guardada ainda. Dobradinha, daquele jeito. Vou gastar, não!

Quando cheguei em casa, o Oscar estava cozinhando. Meio atrasado, meio atrapalhado, do jeito dele. Fui direto pro quarto.

E caí em cima da cama.
Suadaça. 
Molhando os lençois e tudo.
Nem liguei o ventilador.
Fiquei aí. Deitada.
Naquele bafo.
...
E aí sim, meu...
Aí sim.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Atrás da porta

Casa de madeira. Clic! Roupas penduradas. Clic! Pessoa varrendo. Clic!
Um menino correndo...
Não deu tempo.
Passou por mim e sumiu.

A rua ficou silenciosa de novo.
...
Clic!
- Aqui é minha casa!
Eu sabia que ele não estava longe.
Uma porta abriu levemente atrás de mim, deixando aparecer uma cabecina.
Fiz de conta que eu não estava vendo e fiquei tirando fotos. Depois de um bom tempo me observando, ele perguntou:
- Você é menino ou menina?
Dei um tempo antes de responder. Não esperava essa pergunta, apesar de já ter passado muitas vezes por essa situação com outras crianças.
- O que você acha?
Ele encolheu os ombros e foi sumindo de novo atrás da porta, como se tivesse feito alguma coisa errada. Ele devia ter sete ou oito anos. Baixei a máquina e olhei para ele sorrindo, deixando claro que estava tudo bem, que eu não estava ofendida.
- Sou menina.
Então, ele botou de novo a cabecinha para fora, agora mais seguro... avaliando a minha resposta...
E não ficou satisfeito.
- Então, por que é que você tem o cabelo curto?
- Porque eu cortei, ué!
Sacudiu a cabeça com ar muito sério.
- Não pode.
- E por que não?
- Porque se você é menina, tem que ter cabelo comprido!
Essa também, já ouvi muito, e de diversas crianças.
Não respondi nada. Voltei para a minha tarefa, escondendo atrás da máquina a confusão dos meus pensamentos.
Ele também encostou a porta para se esconder... Mas logo abriu de novo... E fechou. Abriu. Fechou. Abriu:
- E por que você usa roupa de menino?
- Eu uso roupa de menino?
- Tá usando!
- Isso aqui que é roupa de menino?
- É!
- Nossa! Eu nem sabia!
Da minha ironia, ele não achou nenhuma graça.
- Você é menina! Tem que usar roupa de menina!
- Sei lá... Eu uso as roupas que eu quiser... E o cabelo que eu quiser...

Sem eu mesmo perceber, acabei me aproximando bastante dele, parando na entrada da casa.

Ele brincando com a porta e eu aqui do outro lado, apontando a máquina bem na cara dele...
Abriu. Fechou. Abriu. Fechou. Abriu... CLIC!
- Ei!
- Tirei!
Eu ri, sincera. Ele fez uma cara de bravo, mas não interrompeu a brincadeira. Ela já era parte da nossa relação.
Ele abrindo a porta lentemente... Olhando no meio do objetivo... Deixando à vista apenas um fiozinho de rosto... E fechando num susto!
Abriu... ... ... Fechou!
Abriu... ... ... ... e deixou aberto... justo na largura da pupila...

Então, ele falou assim, bem baixinho:
- Eu também gosto de usar roupa de mulher.