segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Atitudes

Gostei da Elke.
Quando passei na frente do boteco, ela estava sentada bem na entrada, num banco alto, sozinha com uma cerveja e o maior bandeirão do PT estendido nos cantos da mesa. Uns 45 anos. Postura reta e orgulhosa, cara meio fechada de "não mexe comigo..."
Gostei também do samba que estava tocando lá dentro, no som. Entrei para pedir uma cachaça. Mas logo voltei pra calçada e fiquei um tempo parada em pé, do lado daquela mulher... trocando olhares cada vez mais cúmplices e deixando o sorriso tomar conta do meu rosto, até não poder mais segurar a palavra.
- Chegou chegando, heim? eu falei, brincando. Já com bandeira e tudo!
- Nem me fala! Acabei de expulsar um Bolsonaro daqui!
Ela não estava sorrindo, não. Transbordava de indignação. E, pelo jeito, precisava desabafar.
- Eu não sou assim petista fanática. Não sou puxar a bandeira em qualquer lugar, mas o cara me agrediu! Começou a falar que aquele Outro ia botar ordem nisso aí e mandar todo mundo preso!
- Como assim?
- Por causa do adesivo!
Ela estava com aquele adesivo "Lula Livre" no peito. E, claro, de camiseta vermelha.
- Prender a gente! Todos nós! Presos! Ele me falando isso! Apontando para mim! Aí não me aguentei! Puxei a minha bandeira e pendurei aí bem na cara dele! Aí ele deu para trás. Levantou, pagou - ficou falando mais umas coisas - e foi embora. Não quis encarar! Ficou com medo! Expulsei o cara!
Tomou um gole de cerveja e começou a recolher a bandeira.
- Agora, não precisa mais.
Dobrou ela com cuidado e guardou na bolsa. Parou a música no bar.
- E você nem sabe ainda o que eu passei antes de chegar aqui! Tomei uma oração no metrô, menina!
- O quê?
- Uma senhora que veio colocar a mão na minha cabeça e começou a rezar!
- ...??!!
- Também por causa do adesivo! Botou a mão em cima da minha cabeça! E perguntou se eu queria a ajuda de Jesus. Falei que não! Eu não queria! Mas eu quis mandar ela tomar no cu com seu Jesus! VAI TOMAR NO CU! ... Só que não dá para mandar o Jesus tomar no cu assim, no metrô...
Respirou fundo, agora mais calma, e virou a garrafa em cima no copo.
- Qual é o nome do garçom?
- Poxa... me esqueci...
- Oh gatinho!
- Isso também funciona...
- Traz mais uma cerveja para mim!
O cara trouxe ligeirinho. Veio a minha vez.
- Oh Gatinho! Quando cheguei, tava um samba bem legal aí tocando...
- Isso! Põe um som! - ela de novo. Mas não qualquer coisa, tá! Eu quero de João Nogueira para cima!
Aí eu sentei.
Eu sabia que a gente ia se dar bem. Trocamos altas ideias até mais tarde. E vou te dizer, gostei da Elke. Como eu gosto dessas pessoas que tem atitudes e não vacilam. Que não tem vergonha de largar o marido em casa na sexta-feira para se perder num boteco. Que espantam os vampiros com uma velha bandeira. E não aceitam a salvação de Deus no meio de um metrô lotado.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O Coração falando

Entrei sem falar nada.
Só cheguei no balcão - uma senhora estava saindo, deixei ela passar - e apontei com o queixo pro garrafão de mineira. O moço já me conhece. Aqui eu venho sempre. Ele me serviu um copo americano quase cheio. Quando tomei o primeiro gole, a senhora que tinha passado por mim virou e falou assim, admirada:
- Ai! Não me diz que você é do Sul!
Quase engasguei. Foi o coração falando. Juro que estava pensando em Porto Alegre na vinda para cá. Aliás, eu tinha saído de casa para buscar algo para comer e acabou que a saudade superou a fome. E vim parar aqui, de barriga vazia, para tentar resolver a situação com uma cachaça. Entrei e não falei nada, mesmo! Só apontei com o queixo... E me deparei com essa mulher...
- Já na hora em que eu vi você, achei que tinha cara de gaúcha! E agora, pedindo essa cachaça! Me lembrou uns amigos meus que eram de Santa Maria. Eles sempre começavam as reuniões tomando uma pinga dessas! Era para esquentar, que eles diziam! Eram jornalistas. Eu também. Mas eu não sou do sul. Sou do Maranhão. Mas a gente trabalhava junto no Jornal do Brasil. É. Naquela época. Não era pouca coisa! Depois o jornal deixou de existir. Agora voltou, mas já não é mais aquilo... Mas os meus amigos ainda estão aqui no Rio... Em Santa Teresa. E eles gostam de bebida quente! Eu sou mais da gelada...
Eu estava ainda muda, boquiaberta, engolindo essas palavras todas.
- E você mora onde?
Eu já tinha perdido o fio do discurso quando ela chegou a fazer essa pergunta.
- Hem... Aqui perto... - eu respondi. Quer dizer... Por enquanto... porque na verdade, estou procurando um lugar para morar!
Essa decisão também eu tinha tomado alguns minutos antes, no caminho, vindo pra cá.
- Que ótimo! Eu só agente imobiliária! Toma aí meu cartão!
Na hora, lógico, achei que fosse piada. Que nada! O cartão dela era profissional!
Mas com certeza percebeu o meu ar desconfiado, pois sentiu a necessidade de se justificar.
- É... Acabei trocando. É isso que dá dinheiro! O jornalismo hoje em dia...
[Pois é. Eu já nem me lembrava dessa história de jornalismo.]
- Mas vou te ajudar! Conheço muita coisa por aí! Vamos achar! Me liga!
Ela ficou mais um instante observando a minha cara confusa e perguntou com a maior bondade:
- Posso te dar um beijo para me despedir?
- Pode!
Pegou então a minha cabeça com as duas mãos e encostou os seus lábios na minha testa. Soltou uma risada.
- Olha que eu não sou nenhuma mãe de santa, tá? Mas eu gostei de você!
Ri também. Ela deu outro beijo de bênção no meu cabelo. E foi.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Cacique de Ramos

Tudo começou num evento de rua em Oswaldo Cruz. A Feira das Yabás. Eu tinha ido sozinha, assim, só para conhecer...
Aí aconteceu aquela coisa clássica: você dá de cara com algum amigo, que te convida a sentar junto com ele, a mãe e a namorada. Logo depois chega mais um cara e surge a ideia de terminar a noite num samba. Aí aquele outro amigo traz mais três e você acaba entrando num carro qualquer, sem saber para onde você está indo e menos ainda como você vai voltar pra casa depois.
- Você nunca foi no Cacique de Ramos???
- É que não sou do Rio...
Ao penetrar no galpão, senti aquela energia de vida tomar conta de mim, como se duas mãos estivessem esticando um sorriso no meu rosto de gringa. Abraços desconhecidos me deram a bem-vinda com todo o calor que se dá a um velho amigo cuja ausência era insuportável. "Aqui é tudo família!" falou a mãe do amigo no meu ouvido. Feliz dia dos pais! Fui tirando um por um os meus casacos de inverno e deixando a música me aquecer por dentro.
Dizem que tem gente que não gosta de samba. (?!)
Azar. Eu amo.


 

terça-feira, 19 de junho de 2018

Menino Bandido

Era uma sexta-feira nublada, com uma umidade no ar que te deixava molhado por dentro. A praça respirava uma energia cansada. E as pessoas arrastando o passo...
Parou um menino do meu lado. Parou parado. E ficou escutando a música. Escutando de verdade. Ele devia ter uns 10 ou 12 anos. Assim que eu terminei, ele pediu mais uma. Toquei. E, de novo, ele ficou ouvindo até o fim.
- Esse é seu trabalho? - ele perguntou.
- É.
- Você ganha muito dinheiro, né?
Ele exibia um sorriso malicioso. Respondi apontando pro chapéu que parecia até furado.
- Olha que hoje não é o dia de ficar rico, não!
- Mas os outros dias, você ganha mais!
- Costumo ganhar um pouco mais, é verdade.
- E o que você faz com esse dinheiro?
- Ué?! Eu como! Pago as contas! Sei lá!
Aí, ele ficou atônito, como se eu tivesse dado uma resposta totalmente fora do comum.
- E você? - eu perguntei. Vai para escola?
- Em Copacabana.
- Você mora por lá?
Ele desviou a cabeça, visivelmente incomodado com o assunto. De fato, já era quase uma hora da tarde e eu apostava tranquilamente todo o dinheiro que não estava no chapéu que esse menino passaria o dia na praça.
- É que eu sou bandido.
Ele falou num tom muito sério e desafiador, olhos nos olhos.
- A é?
- Você não acredita?
- Não sei.
- Então vou pegar uma arma e matar alguém.
- Matar pra quê?
- Pra você ver!
- E a pessoa? Coitada!
- Mas é que você não acredita!
- O que te importa?
- Você não acha que tenho cara de bandido?
- Ninguém tem cara de bandido!
- Então deixa que eu vou lá!
Ele falou e não se mexeu um centímetro. Mas ficou repetindo, para ele mesmo, bem chateado: "Eu queria fazer isso agora, para você ver... Ter uma arma..."
E logo virou para mim de novo.
- Você já matou alguém?
- Não.
- Você já conheceu bandidos?
- Mais ou menos.
- Já segurou uma arma?
- Não!
- Mas você não tem emoção na sua vida?!
- ... ?
- O que é que você faz na vida que te emociona?!
- ... Sei lá... Muita coisa...
A provocação foi trivial mas suficiente para me deixar desarmada. Fiquei procurando em vão algum exemplo, alguma lembrança, alguma realização legal ou minimamente emocionante da minha vida...
- Pois é...
- Toca mais uma!
- O quê?!
- Uma música que eu conheça.
- Tipo o quê?
- Tipo pagode.
- Não toco pagode...
Respirou fundo com ar de: "Realmente você não presta".
Me arrisquei num samba mais conhecido.
Já nos primeiros acordes, o rosto dele se iluminou.
- ALCIONE!!!
Confesso que eu não esperava isso. E ele se pôs a dançar, sozinho, no meio da praça, sorrindo e cantando. Quando acabou a música, ele veio determinado.
- Agora eu!
Pegou o microfone e o violão, naquela animação toda. E de repente parou, meio sem graça.
- É que não sei cantar...
- Mmm... Sabe rimar?
- Também não...
- Então vai falando o que quiser.
- Já sei! Vou descrever as pessoas! A moça de bolsinha preta e sapatos altos. O coroa de óculos e casaco marrom. As duas meninas rindo com cabelo comprido e uniforme do colégio. A senhora da banca que vende boneca e que está com frio. O rapaz de blusão que parou para comer uma pipoca...
Não tinha ironia nem maldade na brincadeira. Ele simplesmente descrevia um por um os transeuntes da praça. Segurando o violão ao contrário e tocando algum acorde aleatório entre duas frases.
E ele não demorou muito para chamar a atenção e a simpatia de todo mundo..
Só parou quando ele mesmo quis.
- Mandou bem, menino!
Eu já ia guardando as coisas.
- Você não vai mais tocar?
- É que tá começando a chover. Mais tarde, eu volto.
- Tá bom.
- Qual é teu nome?
- Mmm... Deixa eu pensar... Pedro!
- Tão tá! Pode ser! Prazer, Pedro!
Antes de eu terminar de falar, ele já tinha ido embora.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ferrô


Resumindo...
A igreja evangélica já se tornou um grande poder dentro das favelas.
Junto com o tráfico, claro.
Mas o tráfico também é evangélico.
Assim como o policial é traficante.
E assim como o Prefeito é um Bispo...
Apoiado por vereadores milicianos...
Numa cidade extremamente drogada.
...
Ferrô.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Nossos Medos

Foi numa atividade com crianças. Uma contação de histórias, coisa mais fofa. Perguntaram sobre os nossos medos. Quem tem medo de quê?
- Eu tenho medo de rato!
- Eu não tenho medo de nada!
- Alguém tem medo do escuro?
- Não!
- Sim!
- Medo de arranha.
- De barata!
- De carro.
- ??!!!
Ops. Saiu assim, sozinho, não pensei. Mas quase ninguém ouviu. Só o menino de meu lado, que virou para mim, perplexo, como se eu tivesse dado a resposta mais bizarra do mundo. Rolou até um silêncio meio pesado, que só nós ouvimos.
- Por quê, tia?
- Sei lá... 

E agora? ...
- Carro mata mais do que rato, não é?
Ele encolheu os ombros com a cara de quem não entendeu muito bem, e desviou o olhar.
Sei lá...

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Eu e ela

É que os amigos são muito careta, às vezes. Saem duma reunião e vão para outra. Ou vão para casa. Ou estão cansados. Ou acham que com R$5,00 no bolso, não vão para lugar nenhum.
Enfim... não era nem 21 horas e eu me encontrava sozinha na Lapa com a Bixa (é nome da minha bike).
Fomos andando.
Paramos num boteco. Lógico.
Aquele que tem os piores tragos, mas onde todo mundo conversa com todo mundo. É disso que eu precisava. Ver as pessoas conversarem. Eu já não tinha mais nada para falar. Fiquei aí observando, saboreando uma daquelas canhas de garrafão, baratíssimas e bem servidas.
Quando acabou, fiquei mais um tempo discutindo comigo mesmo para decidir se era o caso de repetir ou de voltar para casa... Acabei optando com uma determinação surpreendente pela segunda opção.
- Você tá tomando o quê?
Um cara chamou lá do fundo do bar.
- Eu? Nada!
Olhei pro meu copo vazio.
- Eu tava com cachaça, mas...
- Pede mais uma!
- Precisa não! Obrigada! Já tô indo...
- Pede mais uma e põe na minha conta!
- Obrigada, mas não vou querer, mesmo.
- Eu gosto da sua música!
- ... ??? ... !!!
- Pede mais uma!
- Peraí... Onde é que você me viu cantar?
- Em vários lugares! E já te vi andando por aí, também, naquela bicicleta colorida.
- ...
- Pior é que nunca te dei nada! Qual é a cachaça que cê quer?
- Sei lá! Tanto faz... Pode ser essa mineira, aí...
- Moço! Serve mais uma! Ou duas! Que essa menina canta muito!
Falou bem alto para todo mundo ouvir, deixou pago e foi embora.
...
Bebi.
...
E aqui tô eu...
...
..
.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Chorei


Chorei, meu. Chorei. Aquele dia.
Não à noite. À noite, eu fiquei olhando as estrelas. Elas não estão no lugar certo, já percebeu? Os desenhos delas... Os triângulos são muito tortos! Os quadrados não são nem um pouco quadrados. Dá vontade de dar uma mexida aí, bem de leve, na ponta dos dedos...
Fiquei horas assim esperando para ver se elas iam não se mover sozinhas. Mas só piorou. E acabei dormindo. Lá pelas três ou quatro horas. No chão do terraço.

Não foi nem o sol que me acordou. Quem me acordou foram os aviões, passando logo ali, em cima da minha cabeça. Costumo escutá-los quando estou no quarto. Mas eu não sabia que eles passavam tão perto. Muito perto, mesmo. Muito perto.
Levantei. Fiz um café. Normal. Tomei um banho gelado, que era para despertar de vez. Não deu certo. Demorei para sair. Quando desci, o pessoal da casa já tinha acordado. O Oscar sentado no sofá, com café e cigarro na mão. Oscar sempre tem uma palavra gentil quando me vê passando com violão nas costas. Até confesso que, às vezes, eu faço questão de esperar ele levantar para sair, só para pegar esse pouquinho de ânimo a mais.
- Bom dia!
- Bdia...
- Vai tocar?
- Vou.
- Ai! Minha heroína!
- Obrigada, Oscar.
Fui.

Calor infernal na rua. E aquele pressentimento no caminho, de que hoje não seria o dia... Mas também, não tinha como saber. Achei um cantinho de sombra numa calçada e montei o equipamento.
Já suando.
E comecei a tocar.
...
Meio vazia. Invisível.
E as pessoas passando.
Negando até um olhar, um sorriso.
Não era o dia, mesmo. 35 graus não é mole. Só sai pra rua quem tem algo muito importante para fazer. E não tem ouvido nem para samba.
E eu cantando.
Fingindo.
Pingando.
...
Volte e meia, alguém afrouxava o passo e botava a mão no bolso. E depois olhava para mim com cara de: “Poxa, se eu tivesse aquele realzinho, eu até te dava...” E seguia seu caminho.
...
Depois de uns 40 minutos, um rapaz finalmente achou aquela moedinha no fundo do bolso e me deu. 50 centavos. Agradeci do coração.
...
Depois de quase duas horas cantando, eu tinha ganhado mais três notas de dois e alguns trocados.
Dava vontade de chorar, mesmo...
Mas não chorei. Segui tocando.
Claro que o certo era voltar para casa. Mas também... voltar para quê? Não tinha nada para fazer em casa...
...
Melhor estar aqui tocando... mais uma música...
...
Mais uma.
...
Mais umazinha...
...
E nada. Ninguém. Nada.
...
Tá, mais uma... e depois dessa...

Aí, já não lembro qual é a música que eu estava tocando. Só sei que eu estava chegando no final dela. Tipo, última estrofe. Quando uma senhora apareceu de repente na minha frente e agarrou a minha mão. A mão direita, a que toca as cordas. Tive que parar.
“Segura aí!” Ela falou.
Segurei. Ela tinha colocado algo na minha palma.
E ficou me olhando bem nos olhos, com aquela firmeza no olhar.
“Você tem uma voz maravilhosa. Você tem que continuar.”
Falou.
E foi embora.
...
Abri a mão. Tinha uma nota de vinte reais. Bem dobradinha, num quadradinho.
Botei no bolso e retomei a música de onde eu estava.
Mas aí, começou a apertar o peito... 
Só que já não dava mais para parar. Tomei uma água e tentei pensar em alguma música mais leve, que os meus nervos pudessem aguentar. Missão impossível! Pois todas as músicas que eu toco têm a sua carga emocional... alguma lembrança, alguma história, algum amigo...
“Se a gente lembra só para lembrar... O amor que a gente um dia...”

Chegou então uma outra senhora. 
Argentina, ela. 
Parou na minha frente, abriu a carteira, puxou uma nota de vinte reais e a colocou no chapéu. 
E foi embora - ainda agradecendo com sorriso educado.
...
..
.
Aí foi demais.
Travei. Fiquei pensando... Me perguntando... por que é que às vezes as coisas dão certo... E às vezes não... E qual é a nossa responsabilidade sobre isso. O nosso poder. E quantos fatores interferem. E que não têm nada a ver com a gente. Ou talvez tenham... E quantas pessoas. E quantas coisas que a gente não entende. Sequer percebe. Quantas coisas... A gente...
E desmontei. Não chorei, não! Só fiquei sem fôlego. Fui guardando as coisas, devagarinho. Com calma.
E voltei pedalando no sol.
Só parei para comprar algo de comida pra casa, com aquela segunda nota de vinte.
Mas a primeira nota, eu guardei. E tá guardada ainda. Dobradinha, daquele jeito. Vou gastar, não!

Quando cheguei em casa, o Oscar estava cozinhando. Meio atrasado, meio atrapalhado, do jeito dele. Fui direto pro quarto.

E caí em cima da cama.
Suadaça. 
Molhando os lençois e tudo.
Nem liguei o ventilador.
Fiquei aí. Deitada.
Naquele bafo.
...
E aí sim, meu...
Aí sim.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Atrás da porta

Casa de madeira. Clic! Roupas penduradas. Clic! Pessoa varrendo. Clic!
Um menino correndo...
Não deu tempo.
Passou por mim e sumiu.

A rua ficou silenciosa de novo.
...
Clic!
- Aqui é minha casa!
Eu sabia que ele não estava longe.
Uma porta abriu levemente atrás de mim, deixando aparecer uma cabecina.
Fiz de conta que eu não estava vendo e fiquei tirando fotos. Depois de um bom tempo me observando, ele perguntou:
- Você é menino ou menina?
Dei um tempo antes de responder. Não esperava essa pergunta, apesar de já ter passado muitas vezes por essa situação com outras crianças.
- O que você acha?
Ele encolheu os ombros e foi sumindo de novo atrás da porta, como se tivesse feito alguma coisa errada. Ele devia ter sete ou oito anos. Baixei a máquina e olhei para ele sorrindo, deixando claro que estava tudo bem, que eu não estava ofendida.
- Sou menina.
Então, ele botou de novo a cabecinha para fora, agora mais seguro... avaliando a minha resposta...
E não ficou satisfeito.
- Então, por que é que você tem o cabelo curto?
- Porque eu cortei, ué!
Sacudiu a cabeça com ar muito sério.
- Não pode.
- E por que não?
- Porque se você é menina, tem que ter cabelo comprido!
Essa também, já ouvi muito, e de diversas crianças.
Não respondi nada. Voltei para a minha tarefa, escondendo atrás da máquina a confusão dos meus pensamentos.
Ele também encostou a porta para se esconder... Mas logo abriu de novo... E fechou. Abriu. Fechou. Abriu:
- E por que você usa roupa de menino?
- Eu uso roupa de menino?
- Tá usando!
- Isso aqui que é roupa de menino?
- É!
- Nossa! Eu nem sabia!
Da minha ironia, ele não achou nenhuma graça.
- Você é menina! Tem que usar roupa de menina!
- Sei lá... Eu uso as roupas que eu quiser... E o cabelo que eu quiser...

Sem eu mesmo perceber, acabei me aproximando bastante dele, parando na entrada da casa.

Ele brincando com a porta e eu aqui do outro lado, apontando a máquina bem na cara dele...
Abriu. Fechou. Abriu. Fechou. Abriu... CLIC!
- Ei!
- Tirei!
Eu ri, sincera. Ele fez uma cara de bravo, mas não interrompeu a brincadeira. Ela já era parte da nossa relação.
Ele abrindo a porta lentemente... Olhando no meio do objetivo... Deixando à vista apenas um fiozinho de rosto... E fechando num susto!
Abriu... ... ... Fechou!
Abriu... ... ... ... e deixou aberto... justo na largura da pupila...

Então, ele falou assim, bem baixinho:
- Eu também gosto de usar roupa de mulher.


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Noite carioca

Saí de casa meio correndo, como sempre, no impulso, enfiando rapidamente as coisas no bolso: chave, celular, caderno, dinheiro...
Parei.
Dei uma olhada geral no quarto. Aquela impressão de estar esquecendo algo...
Apanhei o violão e meti o pé.

Já era noite, mas não sei que horas. Nem sei para onde eu estava indo. Era domingo.
BAM!
Uma moto. Atropelada bem na minha frente. Dois meninos jogados no chão que nem bonecos. Vivos. Nada muito grave. Um pode ter quebrado a perna, o outro deslocou o ombro. A SAMU chegou.
Atravessei a rua e fui parar num boteco.
- Moço! Me dá u...
O garçom já estava vindo na minha direção com sorriso cúmplice e martelinho de cachaça na mão.
Sentei.
Fiquei aí me questionando sobre a necessidade de me questionar sobre a minha rotina de vida no Rio...

- É que a vida é dura!
Quando ergui a cabeça, tinha um rapaz do meu lado.
- É assim mermo! A vida é dura! O cara que não sabe!
- Quer uma cachaça?
- Precisa, não. Tenho a minha.
Ele levantou a camiseta para me mostrar a garrafinha de caninha da roça que ele guardava amarrada na cintura.
- E aí? O que houve? - perguntei.
- Furei! Eu passei o dia todo catando latinhas, sabe o que é isso? É trabalho! E aí, eu tava indo pra lá pra vender e o cara veio me roubar. Eu furei ele!
- Como assim?!
Ele olhou pros lados e puxou o cantinho da luva que ele usava na mão direita, deixando aparecer duas facas afiadas.
- Eu ando preparado...
- ...
Botou um cigarro na boca e agarrou um isqueiro no balcão.
- E cadê as latinhas?
- Vendi. Assim eu comprei a cachaça! E ainda sobrou!
Ele abriu a outra mão para me mostrar um papel bolado que parecia uma nota de 10 reais.
- E cadê o cara?
- Sei lá!
- Mas ele tá bem?
- Ué! Levantou, foi embora!
- ...
- Ele achava o quê? Que podia mandar em mim? Só porque tem duas vezes meu tamanho? Ele não sabe, não! A vida é dura! Eu te digo! Tive que furar!
Ascendeu o cigarro e foi embora despedindo.
- Desculpa qualquer coisa!

Fiquei sem reação, olhando ele se afastando no escuro. Alguém veio falar no meu ouvido.
- Rio de janeiro, menina. Te cuida.
Um senhor. Respondi com olhar indiferente. E puxei o violão, que é o que eu faço quando não sei o que fazer.

Comecei a dedilhar. Uma turma barulhenta e bêbada passou então na frente do boteco. Titubeando. Alguns aproveitaram para entrar.
- Olhaí que tem até um cara tocando!
Ficaram me observando um tempo.
- É menina.
- Heim?
- Você falou "um cara". Mas é uma menina!
- É.
Até que num gesto totalmente natural, um deles pegou a minha cachaça e tomou ela num trago só.
- UÉ!!!
Gritei. E parei de tocar. Ele levou um susto.
- Era sua? Foi mal...
- Agora pede outra!
- Será?
- Simsinhor!
Ele pediu. Pediu até duas. E mais uma carteira de cigarro. Mas o resto do grupo já estava querendo ir embora.
- E aí? Tão fazendo o quê?
- Comprando cigarro!
- Tão demorando!
- Por causa dela! Ela tá tocando!
- O que é que tem a ver?
O homem virou para mim, cobrando.
- Não é que você canta?
- ...
- Então manda um samba aí para eles ver!

Silêncio.
Todo mundo olhando para mim. Esperando alguma coisa acontecer.
E aí?!
Tudo bem. Baixei a cabeça e comecei a tocar.
Eu nem estava no terceiro acorde, quando a turma toda se empolgou para cantar junto.
E assim seguimos a noite, na maior alegria, passando a viola, desafinando Chicos e Caetanos.

Quando o último cara espalhou todas as suas moedas no balcão e perguntou se podia pagar com R$2,35 uma última dose daquela mineira, entendi que estava na hora de ir embora.
Guardei a viola.
O garçom pegou os trocados e serviu um mais martelinho transbordando de pinga.
- Cê mora longe?
- Por aí...
- Te cuida...
- Eu sei.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Mar

Caminhei até o mar.
Nunca fui muito do mar, mas estou gostando cada vez mais dele. Ele tá sempre aí quando você procura.

É que não dá para duvidar de tudo.
Eu, por exemplo, precisava de alguma certeza para me segurar. Tipo, sei lá, que amanhã, vai ter sol...

Só que não. Não vai.
Porque sempre que dizem que vai, não vai.
E quando dizem que vão, não vão.
Se te disserem "vamos!"... nem se mexa...

Portanto, qualquer coisa que for acontecer, não acontece.
O que acontece, é de golpe, sempre.
...
...
E então eles dizem: "Tem que Reagir!"

Parece que estamos voando sem asas, num céu estrelado de ideias lindas.
Tentando agarrá-las. Cada um por si. E ainda pedindo a ajuda dos outros.

Diz o ditado que não se pode contar com ninguém, a não ser consigo mesmo.
Bom. Eu sempre acreditei no exato contrário, durante toda a minha vida.
Mas tudo bem, não tem idade para aprender.
[Outro ditado.]
Temos que voltar para o mar.