terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Sobre Porto Alegre


Sobre Porto Alegre

Sobre o desejo de estar onde as coisas acontecem
Sobre o dever de estar onde as coisas (ainda) não acontecem

Sobre estar num lugar
Sobre realmente estar num lugar

Sobre partir e permanecer
Sobre morrer e seguir existindo
Sobre não morrer

Sobre o orgulho de ser alguém
Sobre o conforto de não ser ninguém

Sobre a leveza da desapego
Sobre o peso do vazio

Sobre a facilidade de largar
Sobre a dificuldade de dar

Sobre liberdade

Sobre cobrança

Sobre voltar pra casa
Sobre ter uma casa

Sobre acumular coisas boas
Num espaço limitado
Sobre renunciar

Sobre persistir numa tarefa
Sobre acomodar-se numa tarefa
Sobre prender a si mesmo

Sobre não enxergar mais nada além do muro na sua frente
Sobre derrubar esse muro

Ou virar as costas
Para não derrubar
...


[Alguns pensamentos que ocuparam a minha mente nas últimas semanas.]

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Diário de bordo

SÁBADO. Descanso. Chuva. Festa. Abraços, abracinhos e abrações. DOMINGO. Mutirão e anarquia. Rango coletivo de casa cheia. Logo vazia. SEGUNDA-NADA. Catando caracóis na horta e lesmas no banheiro. Reunião aleatória. O coletivo às vezes é muito mais eficiente do que a própria polícia para desmoralizar qualquer um. TERÇA-CAMA. Pregadona. Martelo batendo na cabeça. E a gente sem ferramentas na ocupa. Levantei ao som dos tambores: cinco da tarde. Crianças curtindo a oficina. Voltei a sonhar. QUARTA-VIDA. É dia de feira. Sete horas orgânicas, tocando, conversando, rindo, revendo, recebendo, renascendo. QUINTA-CAÑA. Sutil tarefa de provar a cachaça às 11hrs da manhã. E ainda trocando ideias. Boca de Rua: nova edição. Agora sim. Posso dizer que não lembro ter sido recebida com tanta alegria e amor em nenhuma grupo na minha vida. De volta pra ocupa: reuniões, fogueira, caipora, violão (na desordem). SEXTA-CHUVA. Esticando lonas a manhã toda. Encontros e desencontros. A cabeça estourando com tantas informações do tipo que não-se-pode-falar-para-ninguém (assim pelo menos me avisaram aqueles que me contaram). Bateu a saudade. SÁBADO. Cedinho no trampo. Dessa vez, eu vi o cara colocar a nota de 50 no chapéu. Não acreditei mas eu vi. Fim da tarde com a criançada brincando no galpão. Arrasadora, em todos os sentidos. DOMINGO. Passou da meia-noite e aqui tô eu. De plantão numa ocupação de 2000m². Até que estaria tudo bem se não fosse o mal contato dessa luz piscando em cima da minha cabeça. E a carteira de cigarro quase acabando. Pois é... Olha só o tamanho das dúvidas... 
....
Mas que porrada de semana foi essa?!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Eles não sabem



É que eles não sabem
Não sabem quem somos
Não sabem da nossa força
O caminho das nossas ideias
O sangue das nossas veias

Eles não sabem da felicidade
Dos nossos encontros
Eles não sentem o ar que circula
Entre nós
Os nossos olhares
Palavras e silêncios
Eles não sabem
O quanto estamos vivos
O quanto estamos juntos
Afinados
Eles não entendem
Os nossos abraços, os nossos beijos, os nossos jeitos
Eles não concordam!

É que eles não sabem da liberdade
De pular e berrar e rir e gozar de verdade

É que eles não vivem, sabe?
Eles enquadram

Eles têm medo do nosso amor
Chamam ele de raiva
Mas não sabem do calor nem do frio
Não sabem da alma nem do corpo
Não sabem da paixão e nem do sopro
Eles não sabem...


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Conversa de botequim

Eu tinha saído para dar pedalada, quando a chuva me pegou e mudou os meus planos. Fui então me abrigar num boteco daqueles, com samba e futebol, ambiente apertado, pessoas conversando de uma mesa para a outra, e um garrafão de cachaça mineira no balcão. Quem dera meus olhos fossem câmera! Eu poderia ficar horas num lugar como esse, observando os jeitos, gravando as almas...

- Gringa?
- Gaúcha.
- Gremista?
- Colorada.
- Cerveja?
- Cachaça.
O cara gostou de mim. Louco para falar. Um senhorzão sem idade que veio lá da Bahia, na época em que ele jogava bola. Mas depois começou a trabalhar em filmes, na parte da produção. Nunca foi ator. Mas ganhava dinheiro, sim.

A nossa conversa foi cortada pela chegada de um rapaz muito bonito que usava um vestido azul justo e comprido, chamando todas as atenções. Foi até ao balcão, pediu alguma coisa e ficou esperando, ignorando com estilo as pessoas rindo ou tirando onda. Meu vizinho ficou meio sem jeito, envergonhado comigo, e falou como se precisasse pedir desculpa pela cena.
- Meio louca, heim?
Ignorei o comentário. O menino também. Ele pegou o seu trago num copo descartável e saiu sem despedir.
Mas juro que ele piscou o olho quando passou por mim...

Fui sentar junto com outros senhores que estavam assistindo mais uma derrota do Fluminense contra Chapecó.
- Eu queria conversar com você...
Uma mulher baixinha de uns 40 anos veio sussurar no meu ouvido.
- Eu?!
- Mas você vai ficar chateada...
- ... Vou não...!
- Sei lá... Será que não vai, mesmo?
- Claro que não! Vamos!
Levantei e nos afastamos um pouco da mesa.

- Assim. É meu filho. Ele tem 13 anos. Mas já é diferente... Ele quer implantar peitos.
- ...
- Achei que você entenderia...
- ...
[Pois é... você que está lendo isso, deve estar entendendo muito melhor do que eu].
- É que eu tô preocupada... É meu filho! Não queria que acontecesse algo com ele. É que nem você. Você já conquistou todos os homens aqui. Estão todos te olhando... Mas você tem que se cuidar, heim?!
- Mas eu me cuido! Que é que cê acha?!
- Estou preocupada com ele.
- É que seu filho é muito novo! Você tem que conversar com ele. Quando tiver 18 anos...
- 18 nada! Ele vai ter que arrumar um trabalho e uma casa para ele!
- Mmm... Mas peraí! Por que é que você veio falar isso comigo? A gente nem se conhece!
- É que eu estava te olhando. E te achei muito bonita... ou bonito, sei lá. Alguma coisa. Você parece a Ivana da novela. Sabe a Ivana?
- Sei. [Mentira. Alguém ajuda?]
- Então... achei que você poderia entender.
- Ah, tá.
O papo seguiu. Ela contando a sua vida, eu incapaz de assimilar tanta informação. Ela me convidou para aparecer no aniversário dela, Terça-Feira. Vai fazer uma comida em casa. Só não é para chegar muito cedo, nem muito tarde.
- Mas agora, vamos voltar pra lá, porque eles estão todos com raiva de mim. Roubei você...
- Ué! A gente pode conversar!
Ela baixou os olhos.
- Sabe o que? Acho que vou aceitar meu filho como ele é...
- ... Queafudê...

Ela sumiu para dentro do boteco. Eu fiquei na porta, os caras olhando para mim com sorriso curioso. Confesso que aquele copo de cachaça se tornou meio sem graça. Não consegui mais tomar. A minha cabeça já estava em outro lugar. E a chuva de repente tão tímida... Não demorei muito para ir embora.
- E MEU BEEEIIIJOOO???
Louca sou eu de achar que podia sair assim de fininho, sem despedir da Ana.
- Te espero na Terça!
- Combinado!
- Vou falar pro meu filho que você vem... Meu filho... minha filha... enfim...
Ela ficou um tempo pensativa, como analisando suas próprias palavras.
Lhe dei mais um abraço apertado e fui embora.

Eu não entendo NADA dessa vida.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

As nossas opiniões

Com essas idas e voltas entre dois mundos, compartilhando experiências e narrativas, eu fico cada vez mais preocupada ao perceber a facilidade com que se constrói uma opinião. Nada mais fácil, aliás, do que ter uma opinião sobre algo. Não é preciso nenhum conhecimento prévio para inventar ou adotar uma ideia e ainda defendê-la nas redes sociais, num boteco ou na imprensa. Pior: em geral, quanto mais desinformada a pessoa, mais formada a opinião.
Meu Tio Santiago sempre disse: quem viveu um dia num país escreve um livro, quem viveu uma semana escreve um capítulo, quem viveu um mês escreve uma frase... quem viveu mais de um ano já não escreve nada. Eu diria que quem nunca saiu de casa escreve enciclopédia.
Aqui na França, muita gente, inclusive de esquerda, expõe sua opinião sobre a política do Brasil, com a certeza de que a Dilma foi afastada por corrupção, que a prisão do Lula é um pedido popular, que a mídia brasileira é livre e a justiça imparcial. Costumo responder (depois de respirar fundo) que a situação é um tantinho mais complexa...
No Brasil também, já passei noites inteiras discutindo sobre a Europa e, em especial, sobre a questão do terrorismo islâmico, me deparando muitas vezes com uma visão meio estereotipada dos "árabes" e das "periferias" francesas. Bom lembrar que o islam é uma religião com várias correntes (inimigas), abrangendo centenas de países, etnias, idiomas, pensamentos, práticas, e classes sociais das mais ricas às mais pobres do mundo. Também me parece arriscado atrever-se numa leitura das sociedades europeias com referências sul-americanas.
É que as coisas não são triviais. Nenhuma matéria jornalística, nenhum vídeo, nenhum livro poderia relatar de maneira minimamente ampla essas problemáticas.
Só nos resta opinar a toa... Ou então moderar o nosso discurso e aceitar certos limites.
Ou mais difícil: adotar uma atitude.
Porque o mundo não precisa de tantas opiniões (já tem muitas!): ele precisa de ações.
Ações locais, humanas, concretas, humildes, fortes. Cada um fazendo sua parte.
Esperando e confiando em que outras pessoas também estejam fazendo sua parte em outros lugares, interferindo com uma realidade que é delas e que elas conhecem melhor do que nós.
Bora?

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Quantas músicas

Quantas músicas vamos escutar
Quantas horas vamos lamentar
Quantas luzes vamos apagar
Quantos versos vamos declamar

Quantas músicas por um carinho
Quantas horas você sozinho
Quantas luzes num só caminho
Quantos versos por um espinho

Quantas lágrimas que já secaram
Quantas bocas que já gritaram
Quantas lutas que já venceram
Quantos gritos que ressoaram

Quantas épocas pra a gente lembrar
Quantas léguas pra a gente andar
Quantas velas pra a gente apagar
Quantos gases pra a gente inalar

Quantas músicas na sua platina
Quantas horas na sua rotina
Quantas luzes na sua retina
Quantos versos na sua estima

Quantas dúvidas no fundo do peito
Quantas balas furando seu peito
Quantas almas morrendo no peito
Quantos golpes abaixo do peito

Quantas músicas a lua cantou
Quantas horas o tempo marcou
Quantas luzes o fogo queimou
Quantos versos o vento levou

Et quantas músicas...
Quantas músicas...

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Et tes enfants...?

 

- E os teus filhos? Tudo bem?
Eu ODEIO quando fazem esse tipo de pergunta pros meus pais. Pior ainda na minha presença...
- Tudo ótimo. Os meninos estão muito bem. O primeiro acabou de defender uma segunda tese e recebeu elogios do juri. Agora é bi-doutor. A mulher dele está grávida de uma terceira filha. Não tem nem o que dizer...
- E o outro? Vi ele na imprensa esses dias...
- Pois é. Ele também está muito bem. Cada vez mais reconhecido na sua profissão, viaja bastante, convidado para participar de seminários, palestrando por tudo o que é lado... Incrível. E ele também vai ser pai em dezembro...
- Que maravilha...
O carro andando e eu afundando no banco de trás.
Agora vai ser a minha vez. Agoravaiseraminhavez. Agoravaiser...
Sinal fechado. O carro parou e o cara virou para mim, muito sério.
- E você?
-...
- Fazendo a Revolução?
- ...?!
Sabe, aquela vontade de abraçar alguém? Senti meu rosto ficar mais vermelho que comunista.
- Gostei disso... - eu falei - Acho que é por aí, mesmo...
- Muito bem. Os filhos vão esperar!
Deixei escapar um sorriso aliviado. O sinal abriu. O cara piscou o olho e arrancou o carro. O pai ficou quieto. Um dia, eu converso com ele.