sábado, 15 de julho de 2017

Você que não olha para sua vida
Escuta a chuva
Sente o asfalto
Abraça o fato
De não ser ninguém
E quando o mundo girar
Não fica relembrando
Dá um pulo no vazio
Que é para te salvar
Dança, descansa, balança
Nesse tal desavanço
Usa com vaidade
O que te sobrar de corpo

terça-feira, 11 de julho de 2017

Rio de Janeiro


Rio de Janeiro, Zona Norte, 11 de julho de 2017

Cara... Eu queria dominar algum idioma que me permita descrever o meu cotidiano aqui no Rio. Essas tardes de "trabalho" [me perdoem as aspas] na casa onde estou morando, eu editando vídeos e amigos, na sala do lado, desenvolvendo um dos mais coerentes e sucedidos projetos sociais e culturais que eu conheci na minha vida - e para o qual eu tenho agora a honra de dar umas palinhas de fotógrafa. Gargalhadas contínuas e debates ardentes, chegando a planejar cinco ou seis revoluções mundiais por dia.
Cara... Eu fico só pensando nessas inumeráveis pessoas que para quem eu devo tanto - ou deveria, se fosse o caso de saldar a dívida. Famílias [sem aspas] que te agregam à força e fazem que, apesar de muito longe do conforto da placenta da sua mãe, você ainda consegue receber aquele carinho, aquele calor, aquele amor que te abre o único acesso possível à felicidade - porque sem isso, você não tem nada. Nada.
Cara... Não vou nem citar a galera TODA de Porto Alegre para quem ficarei devendo eternamente aquele quasetudo da vida. Muita saudade, mesmo. Mas enfim, só queria registrar que aqui no Rio, também, acabei encontrando um pessoal extra-ordinário.
Cara... Eu sigo não acreditando muito em Deus, mas tenho que admitir que ele parece gostar de mim igual. E tem mais um detalhe. Estou, pela primeira vez da minha vida, "trabalhando" [com aspas] e me "sustentando" [também] fazendo apenas música e vídeo. E ainda por cima em projetos que me dão orgulho.
Cara... sabe o que? Hoje é o aniversário da minha Mãe. É, aquela Placenta e Tanto Mais, para quem se deve TUDO mesmo, e que nunca se agradece como deveria. E aqui tô eu, no Rio de Janeiro, meio que caída de paraqueda. E sabe o que? Acho que acabei de tirar a foto mais bonita da minha vida.
É isso aí, cara... Em casa... Tomando um vinho... Estou feliz.

domingo, 9 de julho de 2017

Minha vida não se resume com palavras
Nem poderia se limitar à cidade
Guarde suas teorias
Verbos enfeitados de rimas e versos
Procure o que eu sinto, penso
Sonhos ao contrário
Acorda para me dizer adeus
Teu olhar fugido num respiro
Acorda, eu falei, estica esse corpo
E tenta agradecer o teu desejo
Desalinha o pensamento
Que logo deixará de ser humano
Procura enxergar além do que foi dito
E grita, meu amor
Grita só

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Cansei de sonhar
Não quero mais
Querer em vez de ser
Acreditar com tanta força
E deixar de tentar
Como se não precisasse mais
Acordado ou dormido
Inconsciente ou vivo
O sonho é uma bosta
Tanta ambição
Tanta frustração
Quero sair da minha cabeça
Sonhar é ilusão de vida
Como se tivesse tempo para isso!
Sonhar...
Só depois de morrer, mesmo.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Oração ao pai

Quando eu estiver vivendo por dentro
Lembrando o que eu fiz, esquecendo o que estou fazendo
Me iludindo com a própria história
Resgatando as vitórias e enterrando as derrotas
Pretendendo que eu já fiz a minha parte
Exigindo respeito, exibindo medalhas


Quando eu desistir de superar o que foi feito
Quando eu achar que as conquistas não se defendem
Ou quando eu estiver apenas defendendo elas

Quando eu pendurar na minha porta trancada
A lista dos lugares por onde eu andei

Quando eu tiver a tua idade
Sabendo de tudo
Com raiva do passado e medo do futuro
Quando eu deixar de questionar, criticar, aprender
Escutar

Quando eu quiser te ensinar

Quando meus sonhos não forem nada mais do que sonhos
E quando eu não for nada mais do que palavra

Aí, sim, Pai, me dá um tapa na cara!
Rasga minhas fotografias
Apaga minha memória
Queima meus cadernos
Me joga na estrada
Faz eu viver de novo!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Século passado

O foda foi nascer no século XIX.
Ter que trabalhar todo dia e lutar para conseguir comida e moradia.
Enfrentar epidemias, doenças, daquelas que só matam os pobres.
E sofrer tanta exploração, os donos de grandes fábricas botando até a criançada na linha, pagando uma miséria. Pra eles ficarem mais ricos, que é pra serem felizes.
Mas seguimos aí, acreditanto no futuro. Tem que acreditar, sim. O século XX vai ser muito melhor.
Os ricos terão tanto dinheiro que já nem vão querer ganhar mais.
Já não vai ter ninguém mais passando fome. Com o conhecimento, as tecnologias, as técnicas de cultivo, vai ter até comida sobrando pra repetir. E quase que ninguém vai precisar trabalhar para isso.
E ninguém vai ficar sem teto também. Com tanta construção, a cidade vai acabar ficando cheia de prédios ociosos e abertos pra quem não tiver onde dormir.
Assim vai a humanidade, crescendo, aprendendo, melhorando suas condições de vida. Descobrindo a solidariedade.
É. O futuro só pode ser melhor.
Foda é esse século XIX que demora tanto para acabar...

domingo, 9 de abril de 2017

Sementes

Se um espaço existe por si só, quem ocupa lhe dá vida.

2016 começou para mim com dois desalojos.
Duas casas destruídas para virar estacionamento ou terreno baldio.
Sonhos desrealizados.

Um ano depois, nasceu até um matinho em cima daquelas ruinas.
Algum dia, ele também será abafado.
E ele já sabe.
Abafado com concreto, a troca de dinheiro, e certamente com a bênção dos que envenenam a terra e privatizam os bens públicos.

Ordem e progresso.

Eu andei pensando sobre o que foi esse ano para mim.
Nômade.
Indignado.
Lutando a toa, sem saber por onde começar.
Ocupando e desocupando.
Acumulando muito, MUITO amor e muita, MUITA raiva.
Até chegar ao ponto de não ter mais espaço para nada, nem na cabeça nem no corpo.

2017: de volta ao ponto zero.
Pertences na mochila.
Olhando pra cima e jogadx para baixo.
Casas, aviões e pessoas seguem sendo derrubadxs.

Eu cheguei à conclusão de que não se constrói nada na vida. Nunca.
Nada que não possa ser destruído de maneira arbitrária em um par de segundos.

Mas afinal, por que tanta pressão?
A natureza sabe tudo.
Não se constrói nada, mesmo.
Só se FAZ.

- OKUPA Y RESISTE -