terça-feira, 4 de agosto de 2020

CUIDADO LIVRO!




Saiu o livro Como Num Romance (inspirado do blog, com textos inéditos).

Adquira o seu no site da editora (www.libretos.com.br) ou direto comigo (prodopida@gmail.com).


segunda-feira, 3 de junho de 2019

O gato

Eu queria contar uma história para vocês. Talvez pareça nada a ver, mas enfim.
É uma história que aconteceu no sítio que os meus pais têm, no interior, num verão que passei por lá, alguns anos atrás.
Nas férias, a casa fica sempre cheia. Família, amigos e vizinhos, chegando e saindo toda hora. E um gato.
Quer dizer: a gente não tem gato e, para falar a verdade, nem queria ter. Mas naquele ano, apareceu um gato lá. E foi ficando...

Detalhe: meu irmão odeia gatos. O-de-ia. O simples fato de saber que tinha um gato por perto já não deixava ele dormir.
A mãe não demorou para se solidarizar com o sofrimento do filho - além de ela que nunca gostou de quem entrava na casa dela sem pedir licença.
O pai tem alergia a gato. Mas também tem pavor de rato e portanto, era o único que ainda enxergava o lado bom da conjuntura.

Quando a mãe se deu conta que o visitante, além de mal-educado, estava se apegando ao lar, ela começou a suspeitar que alguém estivesse dando-lhe comida. Além do pai, foram culpados as crianças e convidados, por não estarem entendendo a gravidade da situação. A ordem foi dada de nunca mais deixar cair da mesa uma migalha de pão.
Com fome, o gato descobriu ligeirinho a entrada da cozinha e também não pediu licença para babar nas panelas.
Aí que o bicho pegou, em todos os sentidos. A mãe ficou furiosa. O irmão revoltado. Juntos, decretaram medidas drásticas: fechar sempre a porta da cozinha, tampar todas as lixeiras, guardar a comida em lugares altos e inacessíveis e não deixar sequer uma louça suja na pia. Medidas que não tiveram outro resultado do que gerar uma tensão absurda e improvável, numa casa de verão onde circulavam mais de dez pessoas por dia.

Surgiu então a ideia de procurar os "donos" do pet. Missão bastante trivial num povoado de 200 habitantes como o nosso. Impossível, no entanto, foi devolver o gato de fato. A cada tentativa de levar ele para lá, ele voltava no mesmo dia.
E nós voltávamos ao ponto de partida.
Um dia que eu surpreendi o meu irmão e a mãe conspirando na sala, tentei compartilhar com eles um pouco da minha experiência - pois apesar de não ter gato, já cheguei a morar com vários que não eram meus, em diferentes casas por onde eu passei. Eu disse que um gato, a meu ver, estava menos pela comida do que pela energia de um ambiente, pelo afeto que sentia e recebia. E que, nesse sentido, era até um bom sinal a gente ser escolhida por ele...
"Energia" é uma palavra que nunca me pareceu fazer sentido para a minha família de lá - a não ser falando em energia elétrica ou cinética. Mas pelo menos, o desafio afetivo foi abraçado com entusiasmo. Não encosta no gato que dá choque! A partir daí, se tornou expressamente proibido demonstrar qualquer tipo carinho ou gentileza para o bicho, e até mesmo olhar para ele se não fosse com desprezo.
Pode ser que o indesejado tenha ficado um pouco mais distante, mais escondido. Mas embora ele não foi. E, mesmo sem acesso à cozinha, ele não esperou passar mais de um dia sem comer: ele se pôs a caçar. Só que não ratos. Sim coelhos, que ele pegava sei lá onde. E trazia suas presas bem na porta da casa, devorava elas começando pelos olhos.
Aí foi que ele se deu mal. Quase perdeu seu principal aliado. Porque o pai, que tem medo de rato, também tem uma paixão incondicional por coelhos. Ele ficou super chateado. Só não abandonou a causa, pelo prazer de não estar concordando com a esposa. Mas ele começou a defender a tese de que, sim, era o caso de servir uma ração para esse gato e acabar com essa nóia toda.
Meu irmão estava cada vez mais indignado. Não pelos coelhos, mas sim pelo impasse onde nos encontrávamos. E talvez também pelo descaso das pessoas que não conseguiam enxergar o gato como um problema.

Tive um dia uma conversa bem séria com ele, onde eu disse justamente isso: que não tinha muito o que fazer. Porque a vida é assim, tu não pode simplesmente "tirar" do caminho quem te incomoda. Se o gato tá aí, tu vai ter que lidar com ele, conviver. Não tem outra. Parecia que as minhas palavras quicavam no rosto fechado dele, sem chegar aos ouvidos. "Mas eu não quero ter gato! E tenho o direito de escolher se quero um gato ou não na minha casa!" Aí eu respondi que, meu, o gato, ele não entende muito de propriedade, e nem de dinheiro, nem de cartório. Que ele está aqui na Terra, igual à gente, e que a gente não tem nenhum direito sobre ele, e que não tem o menor sentido para um bicho dizer que tal terreno assim delimitado pertence ao Dr Fulano e que ele não pode entrar. Que isso é coisa dos homi, e que é super capitalista ainda por cima, e que putaquepariu tá na hora dos seres humanos aprenderem a conviver com a natureza, e entre eles mesmos, sem desmatar, sem matar e sem querer se apropriar tudo e dominar tudo, sempre!

Salve as prostitutas que dão luz.

Nós ficamos nessa.
O pai largando comida nos cantos da casa, escondido da mãe que fingia que não via.

Quando acabou o verão, voltamos pra cidade, e o gato-guerreiro ficou lá.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Esse cabelo

- E você com esse cabelo!
Estávamos sentados na calçada, na frente do bar, com alguns amigos. Era uma tarde de sábado.
Ela já estava lá quando a gente chegou. Meio deitada, apoiada contra a parede, lata de refri na mão. Ela não pareceu se importar muito com a nossa presença. Assim como a gente não incluiu ela no nosso papo. Ficou cada um na sua bolha. Até o momento em que ela virou para mim e falou assim, bem alto:
- E você, com esse cabelo! Ela disse.
Colisão de bolhas.
Ela não estava olhando para minha cabeça. Mas sim para as minhas pernas.
- E você nem se preocupa, né! A gente fazendo de tudo e você...
Ela estava sorrindo, mas entendi que não era zoação. Era outra coisa. Abri a boca para responder e me encontrei muda.
Ficamos alguns segundos nos observando uma a outra, como num espelho. Ela - ou elx? - também tinha pelinhos nos seus braços e pernas. Só que descoloridos. Branquinhos na sua pele escura, e mais brilhantes ainda com a luz do sol.
- Nós fazendo de tudo...
Eu podia ter contado para ela que eu também tinha tentado fazer a mesma coisa, em casa, mais cedo. Resgatando uma sobra de pó descolorante no fundo de uma gaveta... Só que na hora de usar, achei que ele estava com aparência suspeita, amarelado e com maior cheiro de estragado. De fato, nem lembrava de quando eu tinha comprado ele. Fiquei então imaginando a quantidade de químicos que essa merda deve ter e o tamanho do efeito radioativo que poderia provocar nas minhas células... Azar. Corri para baixo do chuveiro e fiquei com as minhas pernas de macaco.
Mas, claro, não contei nada.
- E você não tá nem aí!
Ela continuava comentando, pensando alto, até que o meu silêncio tão desarmado acabou se tornando para ela uma oportunidade de desabafar. Desabafar sobre tudo. Sobre o jeito que tem que ter... e as coisas que tem que fazer. E sobre como as pessoas ficam te olhando, sempre... e o que elas querem, e que não dá para entender, porque as pessoas são muito complicadas e não sabem o que querem, e a gente também não sabe...  Só que mesmo assim, às vezes, dá vontade de fazer as coisas do jeito que a gente quer... e de ser do jeito que a gente é e... e... e dizer... dizer...
- FODA-SE!
- ISSO!
- Gostei de você!
- Eu também!
Nessa altura, os outros já tinham retomado a sua conversa. Tinha-se formado uma nova bolha ao redor de nós duas, onde ecoava a ironia dos nossos fracassos. Rebeldia é algo frágil.

De repente, ela deu uma risada forte e voltou a apoiar a cabeça contra a parede, desviando o olhar. Estourando a bolha novamente.
E mandando essas energias para algum lugar.

sábado, 27 de outubro de 2018

Bom dia favela.

Acordei com a voz dos vizinhos no corredor.
- E você, então? Fiquei curiosa agora...
- Eu? Não dá mais! Vou no Outro. O PT é ladrão!
- Mas o Bolsonaro também é corrupto!
- Mas vai botar ordem nisso aí!
- Mas o Haddad tá casado há trinta anos com a mesma mulher! E o Bolsonaro, a cada dez anos, troca para uma mais nova. Você acha que dá para confiar num cara desses?
- O PT roubou demais.
- Eu só sei que antes do PT, eu nunca tinha saído daqui. E agora, já viajei três vezes para fora do país. O PT mudou a vida dos pobres, essa é a real.
- Mas não dá. Não dá mais. Tem que dar um jeito...

Portas batendo.

Bom dia favela.

(21/10)

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Papos políticos

  - os candidatos - 

 (04/10/2018)
Amigos, eu não voto porque não tenho esse direito, mas eu sei o quanto é difícil escolher um candidato na conjuntura atual. Sei também q não estou no meu "lugar de fala". Peço desculpa.
Mas por mim, se a gente aprendeu UMA coisa em 2016, é a seguinte: NÃO SE VOTA SÓ NUM CANDIDATO. SE VOTA NO VICE TAMBÉM.
Boa noite.

- voto inútil -

(07/10/2018)
Não se combate o fascismo com "voto útil". No máximo, se joga ele num cantinho, junto com aqueles 30% da sociedade, de onde voltará crescido daqui a dois ou quatro anos. E pior ainda se o presidente eleito estiver apenas segurando a bomba, de mãos atadas e obedecendo a um congresso contrário a ele.
A luta contra o fascismo é um trabalho de base. Só.
E, se for pelas urnas, votando num projeto fortr e inovador que, de qualquer maneira, terá de ser defendido nas ruas depois.

 - uma análise -

(08/10/2018)
Derrota da Rede Globo.
Vitória das Igrejas Evangélicas.
E agora, para rivalizar, só com muita paciência, muito diálogo, muita constância, muita ação durante, pelo menos... algumas décadas...

 

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Atitudes

Gostei da Elke.
Quando passei na frente do boteco, ela estava sentada bem na entrada, num banco alto, sozinha com uma cerveja e o maior bandeirão do PT estendido nos cantos da mesa. Uns 45 anos. Postura reta e orgulhosa, cara meio fechada de "não mexe comigo..."
Gostei também do samba que estava tocando lá dentro, no som. Entrei para pedir uma cachaça. Mas logo voltei pra calçada e fiquei um tempo parada em pé, do lado daquela mulher... trocando olhares cada vez mais cúmplices e deixando o sorriso tomar conta do meu rosto, até não poder mais segurar a palavra.
- Chegou chegando, heim? eu falei, brincando. Já com bandeira e tudo!
- Nem me fala! Acabei de expulsar um Bolsonaro daqui!
Ela não estava sorrindo, não. Transbordava de indignação. E, pelo jeito, precisava desabafar.
- Eu não sou assim petista fanática. Não sou puxar a bandeira em qualquer lugar, mas o cara me agrediu! Começou a falar que aquele Outro ia botar ordem nisso aí e mandar todo mundo preso!
- Como assim?
- Por causa do adesivo!
Ela estava com aquele adesivo "Lula Livre" no peito. E, claro, de camiseta vermelha.
- Prender a gente! Todos nós! Presos! Ele me falando isso! Apontando para mim! Aí não me aguentei! Puxei a minha bandeira e pendurei aí bem na cara dele! Aí ele deu para trás. Levantou, pagou - ficou falando mais umas coisas - e foi embora. Não quis encarar! Ficou com medo! Expulsei o cara!
Tomou um gole de cerveja e começou a recolher a bandeira.
- Agora, não precisa mais.
Dobrou ela com cuidado e guardou na bolsa. Parou a música no bar.
- E você nem sabe ainda o que eu passei antes de chegar aqui! Tomei uma oração no metrô, menina!
- O quê?
- Uma senhora que veio colocar a mão na minha cabeça e começou a rezar!
- ...??!!
- Também por causa do adesivo! Botou a mão em cima da minha cabeça! E perguntou se eu queria a ajuda de Jesus. Falei que não! Eu não queria! Mas eu quis mandar ela tomar no cu com seu Jesus! VAI TOMAR NO CU! ... Só que não dá para mandar o Jesus tomar no cu assim, no metrô...
Respirou fundo, agora mais calma, e virou a garrafa em cima no copo.
- Qual é o nome do garçom?
- Poxa... me esqueci...
- Oh gatinho!
- Isso também funciona...
- Traz mais uma cerveja para mim!
O cara trouxe ligeirinho. Veio a minha vez.
- Oh Gatinho! Quando cheguei, tava um samba bem legal aí tocando...
- Isso! Põe um som! - ela de novo. Mas não qualquer coisa, tá! Eu quero de João Nogueira para cima!
Aí eu sentei.
Eu sabia que a gente ia se dar bem. Trocamos altas ideias até mais tarde. E vou te dizer, gostei da Elke. Como eu gosto dessas pessoas que tem atitudes e não vacilam. Que não tem vergonha de largar o marido em casa na sexta-feira para se perder num boteco. Que espantam os vampiros com uma velha bandeira. E não aceitam a salvação de Deus no meio de um metrô lotado.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O Coração falando

Entrei sem falar nada.
Só cheguei no balcão - uma senhora estava saindo, deixei ela passar - e apontei com o queixo pro garrafão de mineira. O moço já me conhece. Aqui eu venho sempre. Ele me serviu um copo americano quase cheio. Quando tomei o primeiro gole, a senhora que tinha passado por mim virou e falou assim, admirada:
- Ai! Não me diz que você é do Sul!
Quase engasguei. Foi o coração falando. Juro que estava pensando em Porto Alegre na vinda para cá. Aliás, eu tinha saído de casa para buscar algo para comer e acabou que a saudade superou a fome. E vim parar aqui, de barriga vazia, para tentar resolver a situação com uma cachaça. Entrei e não falei nada, mesmo! Só apontei com o queixo... E me deparei com essa mulher...
- Já na hora em que eu vi você, achei que tinha cara de gaúcha! E agora, pedindo essa cachaça! Me lembrou uns amigos meus que eram de Santa Maria. Eles sempre começavam as reuniões tomando uma pinga dessas! Era para esquentar, que eles diziam! Eram jornalistas. Eu também. Mas eu não sou do sul. Sou do Maranhão. Mas a gente trabalhava junto no Jornal do Brasil. É. Naquela época. Não era pouca coisa! Depois o jornal deixou de existir. Agora voltou, mas já não é mais aquilo... Mas os meus amigos ainda estão aqui no Rio... Em Santa Teresa. E eles gostam de bebida quente! Eu sou mais da gelada...
Eu estava ainda muda, boquiaberta, engolindo essas palavras todas.
- E você mora onde?
Eu já tinha perdido o fio do discurso quando ela chegou a fazer essa pergunta.
- Hem... Aqui perto... - eu respondi. Quer dizer... Por enquanto... porque na verdade, estou procurando um lugar para morar!
Essa decisão também eu tinha tomado alguns minutos antes, no caminho, vindo pra cá.
- Que ótimo! Eu só agente imobiliária! Toma aí meu cartão!
Na hora, lógico, achei que fosse piada. Que nada! O cartão dela era profissional!
Mas com certeza percebeu o meu ar desconfiado, pois sentiu a necessidade de se justificar.
- É... Acabei trocando. É isso que dá dinheiro! O jornalismo hoje em dia...
[Pois é. Eu já nem me lembrava dessa história de jornalismo.]
- Mas vou te ajudar! Conheço muita coisa por aí! Vamos achar! Me liga!
Ela ficou mais um instante observando a minha cara confusa e perguntou com a maior bondade:
- Posso te dar um beijo para me despedir?
- Pode!
Pegou então a minha cabeça com as duas mãos e encostou os seus lábios na minha testa. Soltou uma risada.
- Olha que eu não sou nenhuma mãe de santa, tá? Mas eu gostei de você!
Ri também. Ela deu outro beijo de bênção no meu cabelo. E foi.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Cacique de Ramos

Tudo começou num evento de rua em Oswaldo Cruz. A Feira das Yabás. Eu tinha ido sozinha, assim, só para conhecer...
Aí aconteceu aquela coisa clássica: você dá de cara com algum amigo, que te convida a sentar junto com ele, a mãe e a namorada. Logo depois chega mais um cara e surge a ideia de terminar a noite num samba. Aí aquele outro amigo traz mais três e você acaba entrando num carro qualquer, sem saber para onde você está indo e menos ainda como você vai voltar pra casa depois.
- Você nunca foi no Cacique de Ramos???
- É que não sou do Rio...
Ao penetrar no galpão, senti aquela energia de vida tomar conta de mim, como se duas mãos estivessem esticando um sorriso no meu rosto de gringa. Abraços desconhecidos me deram a bem-vinda com todo o calor que se dá a um velho amigo cuja ausência era insuportável. "Aqui é tudo família!" falou a mãe do amigo no meu ouvido. Feliz dia dos pais! Fui tirando um por um os meus casacos de inverno e deixando a música me aquecer por dentro.
Dizem que tem gente que não gosta de samba. (?!)
Azar. Eu amo.


 

terça-feira, 19 de junho de 2018

Menino Bandido

Era uma sexta-feira nublada, com uma umidade no ar que te deixava molhado por dentro. A praça respirava uma energia cansada. E as pessoas arrastando o passo...
Parou um menino do meu lado. Parou parado. E ficou escutando a música. Escutando de verdade. Ele devia ter uns 10 ou 12 anos. Assim que eu terminei, ele pediu mais uma. Toquei. E, de novo, ele ficou ouvindo até o fim.
- Esse é seu trabalho? - ele perguntou.
- É.
- Você ganha muito dinheiro, né?
Ele exibia um sorriso malicioso. Respondi apontando pro chapéu que parecia até furado.
- Olha que hoje não é o dia de ficar rico, não!
- Mas os outros dias, você ganha mais!
- Costumo ganhar um pouco mais, é verdade.
- E o que você faz com esse dinheiro?
- Ué?! Eu como! Pago as contas! Sei lá!
Aí, ele ficou atônito, como se eu tivesse dado uma resposta totalmente fora do comum.
- E você? - eu perguntei. Vai para escola?
- Em Copacabana.
- Você mora por lá?
Ele desviou a cabeça, visivelmente incomodado com o assunto. De fato, já era quase uma hora da tarde e eu apostava tranquilamente todo o dinheiro que não estava no chapéu que esse menino passaria o dia na praça.
- É que eu sou bandido.
Ele falou num tom muito sério e desafiador, olhos nos olhos.
- A é?
- Você não acredita?
- Não sei.
- Então vou pegar uma arma e matar alguém.
- Matar pra quê?
- Pra você ver!
- E a pessoa? Coitada!
- Mas é que você não acredita!
- O que te importa?
- Você não acha que tenho cara de bandido?
- Ninguém tem cara de bandido!
- Então deixa que eu vou lá!
Ele falou e não se mexeu um centímetro. Mas ficou repetindo, para ele mesmo, bem chateado: "Eu queria fazer isso agora, para você ver... Ter uma arma..."
E logo virou para mim de novo.
- Você já matou alguém?
- Não.
- Você já conheceu bandidos?
- Mais ou menos.
- Já segurou uma arma?
- Não!
- Mas você não tem emoção na sua vida?!
- ... ?
- O que é que você faz na vida que te emociona?!
- ... Sei lá... Muita coisa...
A provocação foi trivial mas suficiente para me deixar desarmada. Fiquei procurando em vão algum exemplo, alguma lembrança, alguma realização legal ou minimamente emocionante da minha vida...
- Pois é...
- Toca mais uma!
- O quê?!
- Uma música que eu conheça.
- Tipo o quê?
- Tipo pagode.
- Não toco pagode...
Respirou fundo com ar de: "Realmente você não presta".
Me arrisquei num samba mais conhecido.
Já nos primeiros acordes, o rosto dele se iluminou.
- ALCIONE!!!
Confesso que eu não esperava isso. E ele se pôs a dançar, sozinho, no meio da praça, sorrindo e cantando. Quando acabou a música, ele veio determinado.
- Agora eu!
Pegou o microfone e o violão, naquela animação toda. E de repente parou, meio sem graça.
- É que não sei cantar...
- Mmm... Sabe rimar?
- Também não...
- Então vai falando o que quiser.
- Já sei! Vou descrever as pessoas! A moça de bolsinha preta e sapatos altos. O coroa de óculos e casaco marrom. As duas meninas rindo com cabelo comprido e uniforme do colégio. A senhora da banca que vende boneca e que está com frio. O rapaz de blusão que parou para comer uma pipoca...
Não tinha ironia nem maldade na brincadeira. Ele simplesmente descrevia um por um os transeuntes da praça. Segurando o violão ao contrário e tocando algum acorde aleatório entre duas frases.
E ele não demorou muito para chamar a atenção e a simpatia de todo mundo..
Só parou quando ele mesmo quis.
- Mandou bem, menino!
Eu já ia guardando as coisas.
- Você não vai mais tocar?
- É que tá começando a chover. Mais tarde, eu volto.
- Tá bom.
- Qual é teu nome?
- Mmm... Deixa eu pensar... Pedro!
- Tão tá! Pode ser! Prazer, Pedro!
Antes de eu terminar de falar, ele já tinha ido embora.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ferrô


Resumindo...
A igreja evangélica já se tornou um grande poder dentro das favelas.
Junto com o tráfico, claro.
Mas o tráfico também é evangélico.
Assim como o policial é traficante.
E assim como o Prefeito é um Bispo...
Apoiado por vereadores milicianos...
Numa cidade extremamente drogada.
...
Ferrô.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Nossos Medos

Foi numa atividade com crianças. Uma contação de histórias, coisa mais fofa. Perguntaram sobre os nossos medos. Quem tem medo de quê?
- Eu tenho medo de rato!
- Eu não tenho medo de nada!
- Alguém tem medo do escuro?
- Não!
- Sim!
- Medo de arranha.
- De barata!
- De carro.
- ??!!!
Ops. Saiu assim, sozinho, não pensei. Mas quase ninguém ouviu. Só o menino de meu lado, que virou para mim, perplexo, como se eu tivesse dado a resposta mais bizarra do mundo. Rolou até um silêncio meio pesado, que só nós ouvimos.
- Por quê, tia?
- Sei lá... 

E agora? ...
- Carro mata mais do que rato, não é?
Ele encolheu os ombros com a cara de quem não entendeu muito bem, e desviou o olhar.
Sei lá...

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Eu e ela

É que os amigos são muito careta, às vezes. Saem duma reunião e vão para outra. Ou vão para casa. Ou estão cansados. Ou acham que com R$5,00 no bolso, não vão para lugar nenhum.
Enfim... não era nem 21 horas e eu me encontrava sozinha na Lapa com a Bixa (é nome da minha bike).
Fomos andando.
Paramos num boteco. Lógico.
Aquele que tem os piores tragos, mas onde todo mundo conversa com todo mundo. É disso que eu precisava. Ver as pessoas conversarem. Eu já não tinha mais nada para falar. Fiquei aí observando, saboreando uma daquelas canhas de garrafão, baratíssimas e bem servidas.
Quando acabou, fiquei mais um tempo discutindo comigo mesmo para decidir se era o caso de repetir ou de voltar para casa... Acabei optando com uma determinação surpreendente pela segunda opção.
- Você tá tomando o quê?
Um cara chamou lá do fundo do bar.
- Eu? Nada!
Olhei pro meu copo vazio.
- Eu tava com cachaça, mas...
- Pede mais uma!
- Precisa não! Obrigada! Já tô indo...
- Pede mais uma e põe na minha conta!
- Obrigada, mas não vou querer, mesmo.
- Eu gosto da sua música!
- ... ??? ... !!!
- Pede mais uma!
- Peraí... Onde é que você me viu cantar?
- Em vários lugares! E já te vi andando por aí, também, naquela bicicleta colorida.
- ...
- Pior é que nunca te dei nada! Qual é a cachaça que cê quer?
- Sei lá! Tanto faz... Pode ser essa mineira, aí...
- Moço! Serve mais uma! Ou duas! Que essa menina canta muito!
Falou bem alto para todo mundo ouvir, deixou pago e foi embora.
...
Bebi.
...
E aqui tô eu...
...
..
.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Chorei


Chorei, meu. Chorei. Aquele dia.
Não à noite. À noite, eu fiquei olhando as estrelas. Elas não estão no lugar certo, já percebeu? Os desenhos delas... Os triângulos são muito tortos! Os quadrados não são nem um pouco quadrados. Dá vontade de dar uma mexida aí, bem de leve, na ponta dos dedos...
Fiquei horas assim esperando para ver se elas iam não se mover sozinhas. Mas só piorou. E acabei dormindo. Lá pelas três ou quatro horas. No chão do terraço.

Não foi nem o sol que me acordou. Quem me acordou foram os aviões, passando logo ali, em cima da minha cabeça. Costumo escutá-los quando estou no quarto. Mas eu não sabia que eles passavam tão perto. Muito perto, mesmo. Muito perto.
Levantei. Fiz um café. Normal. Tomei um banho gelado, que era para despertar de vez. Não deu certo. Demorei para sair. Quando desci, o pessoal da casa já tinha acordado. O Oscar sentado no sofá, com café e cigarro na mão. Oscar sempre tem uma palavra gentil quando me vê passando com violão nas costas. Até confesso que, às vezes, eu faço questão de esperar ele levantar para sair, só para pegar esse pouquinho de ânimo a mais.
- Bom dia!
- Bdia...
- Vai tocar?
- Vou.
- Ai! Minha heroína!
- Obrigada, Oscar.
Fui.

Calor infernal na rua. E aquele pressentimento no caminho, de que hoje não seria o dia... Mas também, não tinha como saber. Achei um cantinho de sombra numa calçada e montei o equipamento.
Já suando.
E comecei a tocar.
...
Meio vazia. Invisível.
E as pessoas passando.
Negando até um olhar, um sorriso.
Não era o dia, mesmo. 35 graus não é mole. Só sai pra rua quem tem algo muito importante para fazer. E não tem ouvido nem para samba.
E eu cantando.
Fingindo.
Pingando.
...
Volte e meia, alguém afrouxava o passo e botava a mão no bolso. E depois olhava para mim com cara de: “Poxa, se eu tivesse aquele realzinho, eu até te dava...” E seguia seu caminho.
...
Depois de uns 40 minutos, um rapaz finalmente achou aquela moedinha no fundo do bolso e me deu. 50 centavos. Agradeci do coração.
...
Depois de quase duas horas cantando, eu tinha ganhado mais três notas de dois e alguns trocados.
Dava vontade de chorar, mesmo...
Mas não chorei. Segui tocando.
Claro que o certo era voltar para casa. Mas também... voltar para quê? Não tinha nada para fazer em casa...
...
Melhor estar aqui tocando... mais uma música...
...
Mais uma.
...
Mais umazinha...
...
E nada. Ninguém. Nada.
...
Tá, mais uma... e depois dessa...

Aí, já não lembro qual é a música que eu estava tocando. Só sei que eu estava chegando no final dela. Tipo, última estrofe. Quando uma senhora apareceu de repente na minha frente e agarrou a minha mão. A mão direita, a que toca as cordas. Tive que parar.
“Segura aí!” Ela falou.
Segurei. Ela tinha colocado algo na minha palma.
E ficou me olhando bem nos olhos, com aquela firmeza no olhar.
“Você tem uma voz maravilhosa. Você tem que continuar.”
Falou.
E foi embora.
...
Abri a mão. Tinha uma nota de vinte reais. Bem dobradinha, num quadradinho.
Botei no bolso e retomei a música de onde eu estava.
Mas aí, começou a apertar o peito... 
Só que já não dava mais para parar. Tomei uma água e tentei pensar em alguma música mais leve, que os meus nervos pudessem aguentar. Missão impossível! Pois todas as músicas que eu toco têm a sua carga emocional... alguma lembrança, alguma história, algum amigo...
“Se a gente lembra só para lembrar... O amor que a gente um dia...”

Chegou então uma outra senhora. 
Argentina, ela. 
Parou na minha frente, abriu a carteira, puxou uma nota de vinte reais e a colocou no chapéu. 
E foi embora - ainda agradecendo com sorriso educado.
...
..
.
Aí foi demais.
Travei. Fiquei pensando... Me perguntando... por que é que às vezes as coisas dão certo... E às vezes não... E qual é a nossa responsabilidade sobre isso. O nosso poder. E quantos fatores interferem. E que não têm nada a ver com a gente. Ou talvez tenham... E quantas pessoas. E quantas coisas que a gente não entende. Sequer percebe. Quantas coisas... A gente...
E desmontei. Não chorei, não! Só fiquei sem fôlego. Fui guardando as coisas, devagarinho. Com calma.
E voltei pedalando no sol.
Só parei para comprar algo de comida pra casa, com aquela segunda nota de vinte.
Mas a primeira nota, eu guardei. E tá guardada ainda. Dobradinha, daquele jeito. Vou gastar, não!

Quando cheguei em casa, o Oscar estava cozinhando. Meio atrasado, meio atrapalhado, do jeito dele. Fui direto pro quarto.

E caí em cima da cama.
Suadaça. 
Molhando os lençois e tudo.
Nem liguei o ventilador.
Fiquei aí. Deitada.
Naquele bafo.
...
E aí sim, meu...
Aí sim.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Noite carioca

Saí de casa meio correndo, como sempre, no impulso, enfiando rapidamente as coisas no bolso: chave, celular, caderno, dinheiro...
Parei.
Dei uma olhada geral no quarto. Aquela impressão de estar esquecendo algo...
Apanhei o violão e meti o pé.

Já era noite, mas não sei que horas. Nem sei para onde eu estava indo. Era domingo.
BAM!
Uma moto. Atropelada bem na minha frente. Dois meninos jogados no chão que nem bonecos. Vivos. Nada muito grave. Um pode ter quebrado a perna, o outro deslocou o ombro. A SAMU chegou.
Atravessei a rua e fui parar num boteco.
- Moço! Me dá u...
O garçom já estava vindo na minha direção com sorriso cúmplice e martelinho de cachaça na mão.
Sentei.
Fiquei aí me questionando sobre a necessidade de me questionar sobre a minha rotina de vida no Rio...

- É que a vida é dura!
Quando ergui a cabeça, tinha um rapaz do meu lado.
- É assim mermo! A vida é dura! O cara que não sabe!
- Quer uma cachaça?
- Precisa, não. Tenho a minha.
Ele levantou a camiseta para me mostrar a garrafinha de caninha da roça que ele guardava amarrada na cintura.
- E aí? O que houve? - perguntei.
- Furei! Eu passei o dia todo catando latinhas, sabe o que é isso? É trabalho! E aí, eu tava indo pra lá pra vender e o cara veio me roubar. Eu furei ele!
- Como assim?!
Ele olhou pros lados e puxou o cantinho da luva que ele usava na mão direita, deixando aparecer duas facas afiadas.
- Eu ando preparado...
- ...
Botou um cigarro na boca e agarrou um isqueiro no balcão.
- E cadê as latinhas?
- Vendi. Assim eu comprei a cachaça! E ainda sobrou!
Ele abriu a outra mão para me mostrar um papel bolado que parecia uma nota de 10 reais.
- E cadê o cara?
- Sei lá!
- Mas ele tá bem?
- Ué! Levantou, foi embora!
- ...
- Ele achava o quê? Que podia mandar em mim? Só porque tem duas vezes meu tamanho? Ele não sabe, não! A vida é dura! Eu te digo! Tive que furar!
Ascendeu o cigarro e foi embora despedindo.
- Desculpa qualquer coisa!

Fiquei sem reação, olhando ele se afastando no escuro. Alguém veio falar no meu ouvido.
- Rio de janeiro, menina. Te cuida.
Um senhor. Respondi com olhar indiferente. E puxei o violão, que é o que eu faço quando não sei o que fazer.

Comecei a dedilhar. Uma turma barulhenta e bêbada passou então na frente do boteco. Titubeando. Alguns aproveitaram para entrar.
- Olhaí que tem até um cara tocando!
Ficaram me observando um tempo.
- É menina.
- Heim?
- Você falou "um cara". Mas é uma menina!
- É.
Até que num gesto totalmente natural, um deles pegou a minha cachaça e tomou ela num trago só.
- UÉ!!!
Gritei. E parei de tocar. Ele levou um susto.
- Era sua? Foi mal...
- Agora pede outra!
- Será?
- Simsinhor!
Ele pediu. Pediu até duas. E mais uma carteira de cigarro. Mas o resto do grupo já estava querendo ir embora.
- E aí? Tão fazendo o quê?
- Comprando cigarro!
- Tão demorando!
- Por causa dela! Ela tá tocando!
- O que é que tem a ver?
O homem virou para mim, cobrando.
- Não é que você canta?
- ...
- Então manda um samba aí para eles ver!

Silêncio.
Todo mundo olhando para mim. Esperando alguma coisa acontecer.
E aí?!
Tudo bem. Baixei a cabeça e comecei a tocar.
Eu nem estava no terceiro acorde, quando a turma toda se empolgou para cantar junto.
E assim seguimos a noite, na maior alegria, passando a viola, desafinando Chicos e Caetanos.

Quando o último cara espalhou todas as suas moedas no balcão e perguntou se podia pagar com R$2,35 uma última dose daquela mineira, entendi que estava na hora de ir embora.
Guardei a viola.
O garçom pegou os trocados e serviu um mais martelinho transbordando de pinga.
- Cê mora longe?
- Por aí...
- Te cuida...
- Eu sei.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Mar

Caminhei até o mar.
Nunca fui muito do mar, mas estou gostando cada vez mais dele. Ele tá sempre aí quando você procura.

É que não dá para duvidar de tudo.
Eu, por exemplo, precisava de alguma certeza para me segurar. Tipo, sei lá, que amanhã, vai ter sol...

Só que não. Não vai.
Porque sempre que dizem que vai, não vai.
E quando dizem que vão, não vão.
Se te disserem "vamos!"... nem se mexa...

Portanto, qualquer coisa que for acontecer, não acontece.
O que acontece, é de golpe, sempre.
...
...
E então eles dizem: "Tem que Reagir!"

Parece que estamos voando sem asas, num céu estrelado de ideias lindas.
Tentando agarrá-las. Cada um por si. E ainda pedindo a ajuda dos outros.

Diz o ditado que não se pode contar com ninguém, a não ser consigo mesmo.
Bom. Eu sempre acreditei no exato contrário, durante toda a minha vida.
Mas tudo bem, não tem idade para aprender.
[Outro ditado.]
Temos que voltar para o mar.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Pequenos cuidados

"Eu queria que você se cuidasse mais..."
Lembro muito bem da única vez em que um amigo me falou isso, ainda com toda a cautela de quem suspeita a minha propensão meio adolescente a estourar com esse tipo de intromissão na minha vida.
Agora, não lembro de quantas vezes eu quis falar a mesma coisa para uma pessoa que eu amava. Nem foram tantas vezes. Mas igual, não falei. Provavelmente por orgulho e respeito escancarado pela liberdade dos meus amigos; ou por não ter encontrado a mesma delicadeza no tom e nas palavras.
Ou talvez, também, por medo de reproduzir a hipocrisia de uma sociedade que fica alertando a gente o tempo todo mas anda conscientemente a caminho de um suicídio coletivo. Tipo, o irmão que te manda fechar os olhos, te puxa pelo braço em direção ao abismo e te assusta a cada passo com os buracos da estrada.
Ou tipo a mãe que põe uma panela de brigadeiro na tua frente, uma colher na tua mão e sai avisando (com pouca veemência) que não é para comer porque faz mal.

E você fica aí, roído pelo súbito desejo de um docinho, mas sem conseguir avaliar a seriedade do risco e o tamanho das tais consequências. Pois aqui estamos todxs: mercê de uma civilização decaída, que inventou o pornô com camisinha, o banho de sol com protetor e a coca-cola zero vendida em farmácia.

"A cada geração seus problemas" me explicou um dia um velho amigo que hoje faz carreira na indústria petroleira.
...
Você agarrou a panela quase sem perceber, já no automático, enquanto estava fazendo as contas.
São 24 horas por dia. Oito horas no trabalho, duas no transporte, duas para comer e sete para dormir. Resta encaixar a novela, a igreja, o jogo, a maconha, os filhos e o namoro. Realmente, e mesmo contando com o fim de semana (salve!), sobra pouco tempo para viver - e ainda com cuidado.

Chegando nessa conclusão, você segue se deleitando como nunca com aquele concentrado achocolatado de açucar e lactose. Mas sem deixar de lembrar das sagradas recomendações da sua mãe.
Cuidado para não se sujar, cuidado para não cair, cuidado para não se machucar, cuidado para não se resfriar. Cuidado para não esquecer de nada, para não se atrasar, para não se perder!
Não sai pra rua sozinho - nem mal acompanhado! Nem se casa à noite. De dia, só armado.
Cuidado com o assaltante, cuidado com o motorista, com o cachorro brabo, com o bichinho da goiaba, com o calor, com o frio, com a chuva, com o vento...

MA ESTOU ME CUIDANDO, MÃE! Eu me cuido, me cuido, sim, todo dia! A prova é que estou viva! Pedalando com toda força - cadê o capacete, p...?! - no meio dos carros. Até pararia no sinal, se eu não estivesse na contra-mão.

É quase meia-noite.
Eu já não sei mais o que eu queria dizer com esse texto.
O amigo petroleiro tomando drinque em Dubai e você cuidadosíssimo ao raspar o fundo da panela com a ponta da colher.
Todxs nós começando de repente a questionar a prerrogativa do prazer de hoje em relação ao amanhã.
Mas indo dormir às 23h59, com a consciência aliviada.
"Amanhã é outro dia", disse um tal profeta.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Certos Errados

Coloquem na mesa de um debate duas pessoas honestas, igualmente inteligentes e com uma certa afinidade em termos de valores e ideais: mesmo assim, há uma grande probabilidade de que elas acabem encontrando algum ponto de discordância sobre o assunto discutido.
Mas qual seria, então, a proposta de um tal confronto? Definir quem está "certo" ou "errado"? Confesso que tenho as minhas dúvidas em relação à eficiência (e utilidade pública) de tantos debates cegos e surdos, onde os participantes competem entre eles por um glorioso prêmio da razão.

Deixa eu contar uma história. A de um morador de rua que eu conheci em Curitiba e que me explicou um dia por que, apesar das dificuldades que ele estava passando, ele não sentia nenhuma vontade de seguir um caminho mais inserido na sociedade. Aquelas pessoas tristes e caretas atravessando a praça... Aquele estresse do trabalho, do carro, dos horários, da família... Ele não queria isso para ele. Preferia se virar de outro jeito. Perguntei meio brincando o que a mãe dele achava disso. Ele respondeu muito sério, ponderando.
"É... minha mãe... ela acha muito errada a minha vida. Mas é que ela tem o "certo" dela. E eu tenho o meu "certo". Cada um tem seu "certo" na vida. É assim...
Suas palavras ecoavam na minha cabeça enquanto, na rua, dezenas de carros parados no trânsito emitiam numa nuvem de fumaça quente. O menino seguiu falando:
"Mas olha... O meu certo... nem é tão errado assim!"

É que o nosso "certo" nunca deixará de ser nosso. Quer dizer, por mais metódicos sejam nossos raciocínios, eles se baseiam apenas na informação que chegou aos nossos ouvidos e nas percepções extremamente pessoais que temos da realidade. É bom lembrar que a nossa leitura de qualquer situação vem sempre filtrada pelas nossas experiências e lembranças, referências culturais, educativas, acadêmicas, relacionais (...) e até pelo nosso estado emocional.
E é por isso mesmo que a troca de ideias com outras pessoas, desde que procure entender as divergências e não combater o pensamento alheio, é tão revolucionária. Sim, revolucionária. Porque os nossos "certos" e "certíssimos" têm sempre alguma coisa de errado, algum elemento faltando que ainda nos cabe descobrir para poder evoluir e crescer.
Essa busca, desconstrução permanente de si mesmo, baseada no respeito pelo outro, é o que nos mantém vivos, enquanto o estado vegetativo da velhice começa justamente com a pretensão de ter visto tudo e com a arrogância de achar que sua experiência já vale todas as outras.

Nesses tempos de intolerância máxima, temos que ter paciência e juventude na alma. Não podemos envelhecer agora...
Sequer começou 2018 ainda!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Sobre Porto Alegre


Sobre Porto Alegre

Sobre o desejo de estar onde as coisas acontecem
Sobre o dever de estar onde as coisas (ainda) não acontecem

Sobre estar num lugar
Sobre realmente estar num lugar

Sobre partir e permanecer
Sobre morrer e seguir existindo
Sobre não morrer

Sobre o orgulho de ser alguém
Sobre o conforto de não ser ninguém

Sobre a leveza da desapego
Sobre o peso do vazio

Sobre a facilidade de largar
Sobre a dificuldade de dar

Sobre liberdade

Sobre cobrança

Sobre voltar pra casa
Sobre ter uma casa

Sobre acumular coisas boas
Num espaço limitado
Sobre renunciar

Sobre persistir numa tarefa
Sobre acomodar-se numa tarefa
Sobre prender a si mesmo

Sobre não enxergar mais nada além do muro na sua frente
Sobre derrubar esse muro

Ou virar as costas
Para não derrubar
...


[Alguns pensamentos que ocuparam a minha mente nas últimas semanas.]

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Diário de bordo

SÁBADO. Descanso. Chuva. Festa. Abraços, abracinhos e abrações. DOMINGO. Mutirão e anarquia. Rango coletivo de casa cheia. Logo vazia. SEGUNDA-NADA. Catando caracóis na horta e lesmas no banheiro. Reunião aleatória. O coletivo às vezes é muito mais eficiente do que a própria polícia para desmoralizar qualquer um. TERÇA-CAMA. Pregadona. Martelo batendo na cabeça. E a gente sem ferramentas na ocupa. Levantei ao som dos tambores: cinco da tarde. Crianças curtindo a oficina. Voltei a sonhar. QUARTA-VIDA. É dia de feira. Sete horas orgânicas, tocando, conversando, rindo, revendo, recebendo, renascendo. QUINTA-CAÑA. Sutil tarefa de provar a cachaça às 11hrs da manhã. E ainda trocando ideias. Boca de Rua: nova edição. Agora sim. Posso dizer que não lembro ter sido recebida com tanta alegria e amor em nenhuma grupo na minha vida. De volta pra ocupa: reuniões, fogueira, caipora, violão (na desordem). SEXTA-CHUVA. Esticando lonas a manhã toda. Encontros e desencontros. A cabeça estourando com tantas informações do tipo que não-se-pode-falar-para-ninguém (assim pelo menos me avisaram aqueles que me contaram). Bateu a saudade. SÁBADO. Cedinho no trampo. Dessa vez, eu vi o cara colocar a nota de 50 no chapéu. Não acreditei mas eu vi. Fim da tarde com a criançada brincando no galpão. Arrasadora, em todos os sentidos. DOMINGO. Passou da meia-noite e aqui tô eu. De plantão numa ocupação de 2000m². Até que estaria tudo bem se não fosse o mal contato dessa luz piscando em cima da minha cabeça. E a carteira de cigarro quase acabando. Pois é... Olha só o tamanho das dúvidas... 
....
Mas que porrada de semana foi essa?!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Eles não sabem



É que eles não sabem
Não sabem quem somos
Não sabem da nossa força
O caminho das nossas ideias
O sangue das nossas veias

Eles não sabem da felicidade
Dos nossos encontros
Eles não sentem o ar que circula
Entre nós
Os nossos olhares
Palavras e silêncios
Eles não sabem
O quanto estamos vivos
O quanto estamos juntos
Afinados
Eles não entendem
Os nossos abraços, os nossos beijos, os nossos jeitos
Eles não concordam!

É que eles não sabem da liberdade
De pular e berrar e rir e gozar de verdade

É que eles não vivem, sabe?
Eles enquadram

Eles têm medo do nosso amor
Chamam ele de raiva
Mas não sabem do calor nem do frio
Não sabem da alma nem do corpo
Não sabem da paixão e nem do sopro
Eles não sabem...